De amor e de sombra

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"Arranca metade do meu corpo, do meu coração, dos meus sonhos. Tira um pedaço de mim, qualquer coisa que me desfaça. Me recria, porque eu não suporto mais pertencer a tudo, mas não caber em lugar algum..." Usuários online .

Eu escutava Led Zeppelin, mais parei por que o cigarro me fez tossir. Eu estava na varanda tentando ver o sol se abrir, mais cai no sono e depois me vi em cima da cama fria e com saudades daquele abraço. Me virei e acariciei o lado esquerdo da cama, mais não senti nada a não ser uma brisa tocante e morna que veio tocar minha pele. Prometi a mim mesma que não iria mais escutar Led Zeppelin por que me faz lembrar você, por que me faz lembrar quando eu levantava do colchão nua e você me olhava por inteira. Não quero mais escutar good times bad times, mas eu não resisto e corro para o meu toca discos. Em pleno ano 2012 eu ainda tenho um toca disco para escutar good times bad times. Essa música sopra no meu ventre que entorpece o mundo mas não me faz esquecer de você. Eu não sei mais se sou poeta ou se foi meu toca discos que me enlouqueceu, ele quebrou e me feriu a veia. Não quero mais ficar nua, nem quero escutar Led Zeppelin. Mas acontece que eu sopro constantemente o vento que cerca minha boca, e interrompe meu beijo por alguns segundos.

Eu quero escutar Janis Joplin, e imaginar você e eu na lareira ao som de farewell song fazendo o amor no chão. Nada romântico mais eu sei bem, não importa. Quero ser sua virgem de corpo e alma e também com um pouco de coração, minha imaginaçao flui eu corro conforme o as cordas vocais da Janis, mais agora eu vou embora e te deixo com essa minha viajem transparente atrás daquilo que chamei de infinito. Onde eu vi o rapaz de pele clara que me enfeitiçou, e me fez ver estrelas atras daqueles paredes frias e melancólicas. 

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"Até abraçar desaprendemos. Ninguém mais abraça com vontade. Com sinceridade de velório. Odeio abraço falso, como aquele beijo de frígida, no qual a face bate na face e os lábios se transformam em beiço. Abraço tem que ter pegada, jeito, curva. Aperto suave, que pode virar colo. Alento tenso, que pode virar despedida. É pelo abraço que testo o caráter do outro. Não confio em quem logo dá tapinhas nas costas. A rapidez dos toques indica a maldade da criatura. Não sou porta para bater. Nem madeira para espantar azar. Abraço com toquinho é hipócrita. É abraço de Judas. De traidor. O sujeito mal encosta a pele e quer se afastar. Pede espaço porque não suporta os pecados dos pensamentos.Devemos fechar os olhos no abraço, respirar a roupa do abraçado, descobrir o perfume e a demora no banho. Abraço não pode ser rápido senão é empurrão. Requer cruzamento dos braços e uma demora do rosto no linho. Abraço é para atravessar o nosso corpo. Ir para a margem oposta. Nadar para ilha e subir ao topo da pedra pela gratidão de sopro. Sou adepto a inventar abraços. Criar abraços. Inaugurar abraços. Realizar um dicionário de abraços. Um idioma de abraços. O meu é o de cadeira de balanço. Giro nas pontas dos pés. Não largo, os primeiros minutos são para sufocar, os demais servem para o enlaçado se recuperar do susto. Não entendo onde terminará o abraço. Se a pessoa vai chorar ou vai rir. Abraço é confissão. Dez minutinhos de sol e de liberdade.
Fabrício Carpinejar"
  Carpinejar

(Source: carpinejar, via ajanelaantiga)


À noite, meu gigante, eu finjo que sou a luz do teu deserto, a melodia do teu violão. Eu fujo com o isqueiro entre os dedos e grito, aos pulos, e assobio, o mudo, e batuco, a arritmia, em direção à chama que teus olhos, outrora cegos, não conseguiram avistar no primeiro ato. Teu casulo, teu porto , teu muro. Eu vejo, e sinto, e faço, com atrevimento puro, as defesas e carinhos aconchegantes a teu cansaço. Abre os olhos, acolho-te em meus braços, emudece o corpo, calo os atos. É teu meu mundo noturno feito de sombras e coberto pela poesia revolta dos que não escrevem, apenas sentem – sentem demais. Porque tu és o sentidor mais intenso que já encontrei, meu gigante, mesmo sem nunca ter feito verso.

Claudia Calado

"Já aprendi a esconder certas dores, fazer evacuar as línguas da minha alma como se fossem pássaros ambulantes voando sem rumo e também com uma asa quebrada. Já fui assim. Talvez ainda seja assim. Por que eu nunca soube elevar tanta dor quanto venho elevando todos os anos de minha vida, tudo que passei foram águas escuras trazidas pelo oceano sofrendo dimensões gigantescas dentro do meu coração.
Começava pelo ano de 1993, onde eu nem havia nascido. Talvez eram guerras civis de amor, onde não se sabia o que era correr pelos cantos da vida sofrendo amarguras constantes pelo passado. Mas, eu nasci em 1995. Nasci. Nasci e não sei se o dia foi nublado ou ensolarado, por que para ter tantas mágoas assim eu penso que o dia só pode ter sido de tempestade forte, sem sol depois de uma semana. Mas eu nasci e fui crescendo avistando mares pretos, e céus vermelhos. Era cor de sangue mesmo, aquele vermelho que dói só de olhar. Tão forte que deixa triste qualquer um que possa olhar. E nunca soube para onde eu poderia correr, e nem se eu corro. Cresci avistando montes de nuvens cinzas sobre a minha cabeça, e com essas lágrimas que insistem em tocar minha face e rolar pelas maças do meu rosto que são felizes em alguns momentos. Não sou depressiva, estou longe disso. Acontece que passei 17 anos sentindo dor e quase ninguém sabe disso. Nem quem as causou, e nem que eu as tenho até hoje. Que vida engraçada e triste, eu nunca sofri um arranhão na pele, mas fizerem o favor de dilacerarem a minha alma."
  sentimentarista 

(via sentimentarista)


"A figura de Pedro não se dissolve em mim.
Desde aquela noite quente de mil novecentos e oitenta, suponho que o meu tempo corra para o lado errado. Passei por empregos e casas diferentes, me deitei com outros homens e fiz uma tatuagem, mas a figura de Pedro não se dissolve em mim. O erro talvez tenha sido os quinhentos passos acelerados, que juntos à urgência do amor, atropelaram a nossa historia. Na avenida dos amantes desesperados, trecho paixão antiga, ainda estão os nossos corpos. Ensanguentados de muita paixão, orgasmo e dor. Nosso caso foi mesclado imparcialmente nos três. Pensava que se fossemos um quadro, eu e Pedro, como seriamos? Constatei que poderíamos ser uma confusão difícil para um leitor de imagens. Pincelados entre as cores mais alegres e os tons de tristes e fúnebres angustias. Também pensei que se fossemos um texto, seriamos desses escritos que são melhores sentidos por pessoas diferentes da massa social. Pessoas que são inteira coração. Seriamos da única forma que um texto pode ser intenso, um texto doído. Nós daríamos de nós para cada palavra um peso de alegria, e a cada ponto uma angustia. Muitas exclamações e gemidos. Porém em nenhuma das duas opções, seriamos completos. Porque, certamente, ninguém saberia relatar e transformar nossas noites, nossas brigas, nosso sexo. Nós mesmos não soubemos. Vivemos nosso romance sem vírgulas e com toda a inconsequência de dois poetas loucos. Por isso não escapamos do ponto final. Agora as náuseas são fortes, mas não são elas o que mais incomoda. Me incomoda a ideia de ter me transbordado e ainda tê-lo perdido. Me destroe estar aqui, outra vez, frente à mesma tela, surrando o teclado do computador com meus dedos nervosos e com minhas lagrimas, eternizando a minha mesma dor. Todos os dias, sem descanso, destruída por um processo gradativo de solidão, não sabendo se a própria escala de dor é crescente ou não, eu apanho da saudade."
  (Ravena Lamêgo)

(Source: lismorena)


"O cheiro de café penetrava em seus brônquios arrastando tranquilidade para dentro de seu corpo. A inquietação de seus dedos sacolejando a caneta estava insuportável, ela deixou então a xícara de lado e casou tinta com papel:
“Essa necessidade insana de precisar e não conseguir entender está me matando. A verdade é que, embora escreva muito sobre o amor, de certa forma sempre sinto-me nauseada ao ler sobre ele. Não sei ao certo o porquê, mas arrisco o palpite do velho enigma indecifrável. Quer dizer, até tenho algumas coisas para dizer sobre… mas aí é outra conversa. Alguém se habilita a dizer-me por que o amor tem que parecer tão inalcançável? Sabe, tanto quanto a família do comercial de margarina. É uma idealização que somos obrigados e engolir. Um cachorro de quase 100 kg dentro de uma casa é quase um mostro, e um mais levinho muitas vezes sujará sua cama, comerá suas coisas e te dará beijos de língua quando estiver com fome, e o gato não foge a regra, soltará toneladas de pelos, vez por outra fará xixi em seu quarto e deitará com seus 5 kg em cima das suas costas a noite inteira. E o dia nem sempre será ensolarado, assim como o jardim nem sempre terá a grama tão verde e tantas flores. Por mais linda que a sua família seja, raramente estarão todos tão bem humorados. Comercias de margarina deveriam ser banidos. E assim também é com o amor, com exceção da ultima frase, claro. Você não vai ganhar flores toda semana, nem receberá um delicioso café na cama com a frequência que você desejaria, vocês nem sempre terão o mesmo gosto musical, e muitas vezes seu amor terá roupas que ama mas, que você colocaria fogo sem pensar. Nem toda briga será interrompida com um beijo. E o primordial, nenhum dos dois saberá ler pensamentos, então uma boa e chata conversa muitas vezes será necessária. Mas é claro que iremos concordar que, tudo isso só se aplica à um romance de verdade, não a fantasias e idealizações, aonde na maioria das vezes - só não utilizei “em todas as vezes” para não parecer dramática – um ama pelos dois. É preciso muita cumplicidade, respeito e amizade; todas essas coisas de erotismo, desejo e olhares serão só uma consequência. Erramos ao satisfazer idealizações frívolas em vez de nosso coração.”
Virando o último gole de café frio e amargo pela garganta, ela começou a correr os olhos pelas linhas, e já esboçando a expressão tão conhecida de náusea, transformou a folha em um amontoado de picadinho. Impossível tentar entender o amor sem parecer clichê, concluiu."
  velha melodia: